Aos 18 anos, o bailarino maranhense Marcos Sousa acaba de alcançar um feito inédito na história da dança brasileira: ele é o primeiro homem brasileiro a assinar um contrato vitalício com o corpo de baile da Ópera Nacional de Paris, uma das companhias de balé mais renomadas do mundo. A conquista foi confirmada no último dia 28 de junho, e Marcos se prepara agora para retornar à capital francesa, onde iniciará oficialmente sua nova fase profissional no dia 26 de agosto, com a estreia da temporada no espetáculo Giselle.
Nascido na cidade de Grajaú, no interior do Maranhão, Marcos iniciou sua trajetória artística dançando em quadrilhas juninas. Aos 10 anos, foi incentivado por Timóteo Cortez, coreógrafo local, a ingressar em uma academia de dança. Pouco tempo depois, participou de uma pré-seleção da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em 2019, sendo aprovado para estudar na unidade em Joinville (SC).
Superação desde cedo
A mudança para Santa Catarina, ainda criança, representou seu primeiro grande desafio: longe da família, Marcos precisou lidar com a saudade e, pouco tempo depois, com a pandemia da covid-19. Apesar das dificuldades, seguiu firme.
“Era uma escola nova, pessoas novas, e logo veio a pandemia. Foi muito difícil, mas deu tudo certo”, relembra.
A presença da mãe ao seu lado, a partir de 2021, foi fundamental para a adaptação. Em setembro de 2023, já com destaque na escola, o bailarino conseguiu uma vaga na prestigiada École de Danse de l’Opéra National de Paris, após insistir com e-mails e realizar uma audição presencial na França, mesmo com uma lesão no pé.
“A audição foi muito difícil, estava com o pé torcido e tomando medicamentos para conseguir dançar. Mas fui aprovado, mesmo achando que não seria. Foi uma felicidade imensa”, conta.
Reconhecimento internacional
Durante o curso na escola parisiense, Marcos acelerou sua formação, avançando rapidamente pelas divisões internas, graças ao seu talento e dedicação. “O primeiro ano foi desafiador, mas lutei muito. Chorava de saudade, mas não me desmotivava. Consegui fazer amigos e comecei a falar francês”, diz.
Mesmo diante de mais uma lesão, desta vez no tornozelo esquerdo, conseguiu se recuperar a tempo de dançar no espetáculo de fim de ano, dividindo o palco da Ópera Garnier com o também brasileiro João Pedro Silva.
Contrato vitalício e futuro
A aprovação para o corpo de baile permanente veio após uma rigorosa audição realizada no fim de junho. Marcos foi um dos três bailarinos escolhidos entre dezenas de candidatos. A confirmação foi colada em uma parede, como é tradição, e ele logo compartilhou a notícia com a mãe, sua maior apoiadora.
“Até hoje não acredito. Sou o primeiro brasileiro com contrato vitalício na companhia. Passa um carrossel na minha cabeça. Liguei primeiro para a minha mãe, depois para minha primeira professora”, emocionou-se.
Antes de retornar a Paris no dia 20 de agosto, Marcos aproveita as férias para reencontrar amigos em Joinville e visitar sua mãe em Grajaú. O balé Giselle abrirá a temporada 2024/2025 da Ópera de Paris, mas ele ainda não sabe qual papel vai interpretar. “Sempre assisti esse balé, mas nunca dancei. Vai ser uma experiência incrível”, afirma.
Orgulho nacional
Para o diretor-geral da Escola Bolshoi no Brasil, Pavel Kazarian, o feito de Marcos é a prova do impacto social do projeto. “Mais de 70% dos nossos alunos estão empregados na dança. A arte transforma vidas, famílias e comunidades.”
A Escola Bolshoi em Joinville é a única extensão oficial da instituição russa fora da Rússia e oferece bolsas integrais a todos os alunos, com apoio de patrocinadores e pessoas físicas por meio do projeto Amigos do Bolshoi.
Marcos Sousa agora representa o Brasil no mais alto patamar do balé internacional, inspirando jovens talentos do país com sua história de superação, coragem e paixão pela dança.

